A saga do produtor rural entre a palavra que o obrigou a continuar e a conta que chegou depois

Lembra de março de 2020?
As cidades fecharam. Comércio de porta baixada, escola vazia, avenida sem carro. O país inteiro foi mandado para casa.
Menos um pedaço dele.
No campo, ninguém parou. O plantio seguiu, a colheita seguiu, a ordenha seguiu às quatro da manhã como sempre. O caminhão de grão continuou rodando por estrada vazia. Um decreto federal colocou a produção e a distribuição de alimentos na lista de atividades essenciais, e a palavra pegou. O produtor rural virou essencial.
Foi bonito de ouvir. Circulou pelo país o bordão de que o agro não parava. E não parou mesmo.
O que o produtor entregou
Os números daquele ano são de uma clareza difícil de repetir.
Em 2020, o PIB brasileiro caiu 3,3%. A agropecuária cresceu 4,2%. Foi o setor que segurou a economia enquanto o resto afundava. Segundo cálculos da CNA, o campo gerou quase 62 mil novas vagas de emprego naquele ano, mais de quatro vezes o saldo de 2019, e as exportações do setor bateram recorde.
Não faltou comida no supermercado. Num ano em que faltou quase tudo, isso não foi pouca coisa.
O que a palavra “essencial” realmente significava
Aqui está o ponto que quase ninguém parou para pensar.
Essencial, naquele decreto, não era um título de proteção. Era uma obrigação de continuar.
O comerciante da cidade teve a loja fechada, e com ela vieram, bem ou mal, suspensão de contratos, linhas emergenciais e auxílio. O produtor não teve a porteira fechada. Teve que abri-la todos os dias, com insumo que subia, com câmbio que disparava, com o risco inteiro nas costas. Ninguém pediu que ele parasse, então ninguém pensou no que aconteceria se ele não aguentasse continuar.
Essencial queria dizer: você não pode parar. Não queria dizer: nós vamos segurar você se cair.
Essa é a síntese do que este espaço repete desde o primeiro texto. O Brasil terceirizou a obrigação de produzir comida ao produtor rural e não dividiu o risco junto. Em 2020, isso ficou escrito em decreto.
Seis anos depois
A palavra “essencial” sumiu do vocabulário. No lugar dela apareceram outras.
Inadimplência. A de produtores rurais pessoa física chegou a 8,8% no primeiro trimestre deste ano, patamar recorde.
Crédito encolhendo. A área custeada por crédito rural caiu de 34,2 milhões de hectares em julho de 2025 para 25,4 milhões em julho de 2026.
Margem que não fecha. O levantamento do Imea e do Senar-MT projeta, para o milho de alta tecnologia em Mato Grosso, uma receita que não cobre nem o custo operacional.
E recuperação judicial. Segundo a Serasa Experian, o agronegócio registrou 1.990 pedidos em 2025, o maior número da série histórica, alta de 56,4% sobre os 1.272 de 2024. Em 2023, tinham sido 534. No primeiro trimestre de 2026 vieram mais 474, avanço de 21,9% sobre o mesmo período do ano anterior.
Vale registrar o que a própria Serasa diz sobre esses números: o avanço reflete margens apertadas, custo alto, crédito mais restrito e endividamento elevado, e a recuperação judicial deve ser tratada como último recurso, depois de esgotadas as tentativas de renegociação. Não é saída, é sintoma. Quando o último recurso vira estatística recorde três anos seguidos, alguma coisa antes dele falhou.
O mesmo produtor
A parte mais dura desta história é que não estamos falando de outra gente.
O produtor que hoje aparece nas estatísticas de inadimplência é, em boa parte, o mesmo que plantou em 2020 enquanto o país estava em casa. A mesma fazenda, o mesmo nome, a mesma disposição de não parar. Ele não ficou menos essencial. O país é que deixou de precisar lembrar disso todo dia.
Comida no prato só vira assunto quando falta. Enquanto ela chega, quem produz é invisível. E foi exatamente por ter continuado entregando, safra após safra, que o produtor saiu da manchete.
O que deveria ter ficado de 2020
Se a produção de alimentos é essencial em uma pandemia, ela é essencial numa crise de preço, numa seca, numa alta de juros. A comida que faltaria é a mesma.
Um país que reconhece isso trata o risco de quem produz como assunto público. Seguro rural que alcance de verdade quem planta. Crédito com prazo compatível com o ciclo da lavoura e do rebanho. Renegociação que chegue antes da execução, e não depois dela.
Nada disso é favor. É a contrapartida lógica de uma palavra que o próprio Estado usou.
Em 2020, o país pediu ao produtor que não parasse. Ele não parou. Seis anos depois, a pergunta que fica é simples: quando for o produtor a precisar, quem vai considerar essencial não deixá-lo cair?
Dados do IBGE (PIB 2020), da CNA, da Serasa Experian (Relatório Agro de Recuperação Judicial), da Farsul com base no Banco Central e do Projeto Custo de Produção Agropecuário de Mato Grosso (Imea e Senar-MT). Este texto tem caráter informativo e de análise de política pública, e não constitui orientação sobre situações individuais.

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